Capas


sábado, 19 de julho de 2014

Avelino Cusparada


Avelino era um desses típicos homens do interior de vida humilde. Alto e magro poderia facilmente receber o apelido de bambu ou caniço, mas devido ao estranho habito de mascar fumo e soltar o cuspe em qualquer lugar que estava era chamado de Avelino Cusparada.

Avelino cusparada tinha um amigo e compadre que morava há uns dois quilômetros de seu sitio e que ele visitava uma ou duas vezes por mês. O compadre Neno já tinha seus 70 anos e morava somente com a esposa em uma casa grande que antes fora pequena para criar os seis filhos que se foram para a cidade onde a vida passa ligeiro. Segundo Neno, a internet e a faculdade levaram as suas eternas crianças.
A esposa do Compadre Neno, a Comadre Adelina é uma mulher forte e que adora a limpeza. O casarão da comadre Adelina era brilhante e o terreno em sua volta lembra um piso de porcelanato apesar de ser de terra.

O que mais chama a atenção no casarão é o piso de madeira, lustroso e com um brilho de ver "carçola de moça" como falava o Compadre Neno. Devido a mania de limpeza da comadre a coisa que ela mais odiava era as visitas do Avelino cusparda que espalhava o seu apelido pelo assoalho todo.

Certo dia em uma dessas visitas criticada pela comadre Adelina -Lá vem o cuspão! - disse ela ao seu marido -Mas hoje ele me paga!- Correu para a cozinha e pegou uma panela, sentou-se ao lado do marido que convidava o Avelino cusparada para se sentar e começar a conversa que como sempre se estendia pela tarde toda.

Não demorou para o Compadre Avelino tirar um naco do seu fumo e começar a mastigar, sem muita cerimônia pela simplicidade, veio o primeiro cuspe no assoalho da irritada comadre. Ela educadamente e sem disser uma só palavra se levantou e colocou a panela no local exato do primeiro tiro.

O Avelino percebeu o movimento da comadre e soltou o segundo do outro lado, longe da panela da comadre que novamente sem disser nada, se levantou e colocou a panela no local onde o piso fora covardemente atingido pelo cusparada.
Assim se foi durante mais ou menos uma hora. A comadre colocava a panela onde caia o cuspe e o Avelino no seguinte desviava o tiro para o outro lado. Panela aqui e cuspe lá se indo até que o Avelino cusparada irritado com aquela cena toda resolveu intervir.

-Compadre Neno, não me leve a mal, gosto muito de visitar vocês e isso é de anos, mas preciso disser uma coisa deselegante para a comadre se o compadre me permitir claro.

-Pois diga lá Compadre -solicitou Neno.

-Comadre Adelina, com todo respeito, ou a senhora tira essa panela do chão ou eu vou acabar cuspindo dentro!

Cláudio Albano