Capas


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

São Miguel do Iguaçu - Imaginário e Cotidiano dos Colonizadores

É rica a fonte informativa de crenças, costumes e tradições que povoavam o imaginário e acompanhavam os colonizadores que aqui se instalaram na década de 50, pois convergiam de várias regiões do Brasil e mais especificamente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Contam os colonizadores que saiam de seu Estado de origem em busca de melhores condições de vida para si e seus familiares. Tinham sonhos, perspectivas e entusiamo para lutar e construir uma vida nova e um futuro promissor.

Geralmente os homens vinham na frente para conhecer as terras e observando a terra nova, entusiasmados, voltavam para buscar as famílias. As mudanças eram transportadas por caminhões e por homens que tinham a função de transportar essas mudanças. Um dos primeiros a exercer essa atividade foi João Ghellere, que trouxe mais de oitenta mudanças do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Na mudança, sobre os caminhões, além dos móveis e utensílios vinham também as famílias, trazendo consigo, sementes de trigo, milho e feijão e mudas de árvores frutíferas. A maioria não trazia gado nem aves. Estes, mais tarde, eram trazidos pelos caminhões, que vez por outra iam até Guaraniaçu ou Cascavel.

Contam os transportadores de mudanças que quando chovia a viagem podia demorar mais de vinte dias. Durante a viagem, tanto motoristas como as famílias abrigavam-se em pensões em Nova Laranjeiras, Guaraniaçu, Rocinha, Catanduvas e Cascavel. Para chegar até onde hoje é São Miguel do Iguaçu, entravam em Céu Azul, na Estrada Velha, vinham costeando o Parque Nacional do Iguaçu, chegavam em Foz do Iguaçu e de lá, por uma picada, até o destino final, a Gaúcha da época.

Os caminhões só eram abastecidos no Paraguai ou Argentina, locais mais próximos para encontrar combustível, depois de Cascavel. Ao chegar, as famílias encontravam muitas dificuldades, algumas compravam um pedaço de terras da Colonizadora Gaúcha, outras vinham para trabalhar como arrendatários ou empregados.

A maior dificuldade enfrentada foi a falta de transporte, o que preocupava muito, principalmente em casos de doença. O maior temor dos pioneiros era o sofrimento de ataques constantes de cobras venenosas, principalmente cascavéis e urutus e como não existia soro antiofídico no local e, se existia era pouco, com a dificuldade de deslocamento, muitas vezes ocorria a perda de órgãos e em alguns casos, a morte. Animais ferozes também existiam e era comum ouvi-los à noite nas matas próximas ou rondando as casas em busca de alimentos.

Nenhum dos entrevistados esqueceu dos mosquitos conhecidos como "borrachudo" e "pólvora". - "Era um inferno. Para trabalhar era preciso vestir mangas longas e até meias e aí o calor era insuportável. Até para comer era preciso fazer fumaça embaixo da mesa. A fumacinha era uma grande ajuda também quando se ia tirar leite, porque senão nem a vaca parava...".

Outra dificuldade sentida era a falta de gêneros alimentícios e de primeira necessidade. Alimentos e remédios, os moradores buscavam em Foz do Iguaçu e, na sua maioria, na Argentina. A alimentação básica trazida pelos pioneiros consistia em feijão, arroz e farinhas. Outros mantimentos como açúcar, queijo, banha e café eram trazidos do vizinho país.

Após algum tempo podiam contar com a mandioca, o milho, a batata, o arroz, o café, que cultivavam na propriedade, para subsistência, e também com o palmito, encontrado com facilidade na mata. Por ser uma região ainda selvagem, era comum o abate de algum tipo de caça. Os animais preferidos eram o veado, a paca, a anta, o porco-do-mato, o tateto, o tatu e algumas aves como o jacu, a jacutinga e pombas. Os rios eram limpos e apresentavam uma grande quantidade e variedade de peixes. A vestimenta era bem tradicional, ou seja, distinguia-se bem uma roupa de festa das demais roupas. Geralmente vestidos ou saias abaixo dos joelhos para as mulheres. Para os homens a roupa era um pouco mais social, como calças de tergal e paletó, ou camisa de mangas longas. O chapéu também era parte da vestimenta.

Às mulheres cabia os afazeres domésticos como limpar a casa, lavar as roupas, cuidar das crianças, preparar refeições, tirar leite das vacas, tratar da criação e costurar, além de acompanhar o esposo no preparo da terra, no plantio e nas colheiras. As famílias contavam com a ajuda dos filhos, nos serviços gerais e talvez tenha sido este um dos motivos do rápido desenvolvimento do município e do crescimento populacional: quanto mais filhos, mais mão-de-obra e, em conseqüência, maior atividade agrícola, uma das principais fontes econômicas na época.

As mulheres lavavam as roupas da família na "bica", como chamavam os riozinhos, onde reuniam-se nos dias de sol. Estas mulheres eram bastante unidas, visitavam-se freqüentemente, principalmente aos domingos à tarde, quando reuniam-se para o chimarrão. Um nascimento era motivo de visitas acompanhadas de muito auxílio à parturiente. Um batizado era comemorado com festas. A valorização das pessoas e a solidariedade eram muito grandes.

A religião predominante era a Católica e por isso os moradores uniram-se e construíram uma igrejinha onde realizavam os cultos dominicais. De vez em quando vinha um padre, que além de rezar a missa, realizava os batizados e casamentos. As diversões eram poucas e consistiam-se, principalmente em visitas, alguma festa, baile ou jogo de futebol. Para os homens restava ainda a prática das caçadas e pescarias, que, aliás, foram muito importantes no início da colonização, pois garantiam à comunidade o consumo de carne, uma vez que não existiam criações e o pouco gado existente era utilizado para o trabalho. Carne de gado só era encontrada em um açougue em Foz do Iguaçu, distante cinqüenta quilômetros, por picadas na mata. Equipes de caçadores garantiam o fornecimento de caça, carne para consumo na época.

De acordo com alguns entrevistados, apesar das dificuldades encontradas, homem e mulher lutavam lado a lado com planos traçados e objetivos comuns. Não desistiam facilmente dos projetos nem do casamento. A mulher recebia uma educação na família para seguir o marido e lutar ao seu lado onde quer que esse fosse, enfrentando qualquer dificuldade. O ânimo e o entusiasmo de construir um futuro melhor é que as impulsionava e todas são unânimes em afirmar que não existia depressão.

A análise de dados obtidos junto ao Cartório do Registro Civil mostra que os casamentos, na época da colonização, eram realizados, em sua totalidade com a opção dos nubentes, pelo regime da comunhão universal de bens. "Uma segurança para quem estava começando uma vida nova num lugar novo", diziam.

As informações colhidas mostram, também, que os noivos, de todos os meses do ano, preferiam o mês de julho para se casarem. Os pioneiros, em seus depoimentos esclarecem que isso ocorria devido aquele mês ser o mais favorável financeiramente para as famílias porque coincidia com o fim das colheitas e a venda da produção agrícola. Já não ocorria o mesmo com o mês subseqüente, agosto. O principal motivo da realização de poucos casamentos nesse mês sempre foi atribuído ao azar e à superstição: - "Quem casa no mês de agosto, terá desgosto...".

Assim, em agosto só eram celebrados casamentos de extrema necessidade, como por exemplo, mudança de residência ou gravidez. Nos meses de março e abril também não eram realizados casamentos porque nesse período ocorre a quaresma e as pessoas, muito religiosas, tinham muito respeito pelas ordens da igreja. Os casamentos eram realizados sempre com muita festa, com as noivas usando vestidos brancos, véus e grinaldas. A tradição maior era o bolo dos noivos.

Quanto ao trabalho, a maioria dos moradores homens tinham como profissão a agricultura e, em alguns casos, a pecuária, que juntas davam sustentação econômica às famílias e à pequena vila. Somente com o passar do tempo, o desenvolvimento trouxe a necessidade de novos profissionais, que aos poucos foram se integrando à comunidade, surgindo, então os comerciantes, alfaiates, motoristas, carpinteiros, professores e outros e com eles começaram a surgir as lojas, as pequenas indústrias de transformação, os hotéis, os escritórios, os cartórios, os hospitais, as farmácias, etc.

Para as mulheres não restavam alternativas e todas tinham como principal atividade os afazeres domésticos, cuidando dos filhos, da casa e ainda ajudando na lavoura, quando necessário. Essa condição doméstica não era vocacionada, mas sim imposta pelos costumes da sociedade da época, que não permitia à mulher o direito ao estudo formal que só era permitido aos homens: "Estudar não é coisa para mulher. Ela precisa saber cuidar da casa, dos filhos e do marido e só. O homem precisa saber ler e escrever e fazer contas, porque é ele quem faz os negócios".


Foi nesse cenário de crenças, costumes, tradições, solidariedade e fé que aos poucos a selva, o isolamento e as dificuldades foram sendo vencidas e a pequena vila denominada Gaúcha, graças à coragem, sacrifícios e trabalho de seus pioneiros, transformou-se no município que hoje é SÃO MIGUEL DO IGUAÇU.

Foto e texto retirados do site da Prefeitura Municipal.

Cláudio Albano

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Seja, Sinta, Olhe

SEJA, SINTA, OLHE.
Seja marginal.
Seja herói.
Seja triste.
Seja alegre.
Seja grande.
Seja pequeno.
Seja você.

Sinta ódio.
Sinta amor.
Sinta o sol.
Sinta a chuva.
Sinta as estrelas.
Sinta o cosmos.
Sinta você.

Olhe as montanhas.
Olhe a planície.
Olhe o homem.
Olhe a mulher.
Olhe a criança.
Olhe o velho.
Olhe você.

Olhe pra você, sinta você, seja você!

Cláudio Albano